Skip to main content

Levando um tijolo para Kiev

Levei um tijolo para Kiev de trem neste inverno. Não sabia exatamente por quê, mas sabia que era a coisa certa a se fazer. Foi uma espécie de declaração, uma pergunta em aberto; intuitivamente, senti que deveria fazer isso.

Existem coisas que não podem ser comprovadas, que não podem ser colocadas em planilhas e relatórios. Elas não são quantificáveis, mas ainda assim são importantes. A arte, em todas as suas formas, é uma dessas coisas. No Fórum da Democracia de Caux, na semana passada, tentamos dar espaço à mentalidade artística em uma conferência dedicada à democracia. Por quê?

Acreditamos que a arte representa e orienta as histórias que contamos uns aos outros — e que contamos a nós mesmos — sobre quem somos, de onde viemos, para onde estamos indo e para onde queremos ir. Isso se aplica tanto aos indivíduos quanto à sociedade como um todo. Por trás de toda constituição há um acervo coletivo de histórias e valores. A arte se refere a isso e reflete isso.

Se você olhar para uma moeda ou nota, verá um número, um valor. Mas também verá elementos de narrativas nacionais, edifícios, pessoas famosas, símbolos de identificação e até mesmo certas cores e imagens de obras de arte. Esses são lembretes da história subjacente, além do valor nominal da moeda ou nota. A arte é a narrativa e a memória coletivas.

Nesta conferência, quisemos abrir uma porta, estender um convite para compreender e despertar a mente artística que existe em todos nós. A arte não se resume apenas a um produto final; é, na mesma medida, uma mentalidade, um processo, uma jornada, um modo de viver e de ver. Queríamos destacar e reacender essa mentalidade artística tanto quanto a expressão artística final, a fim de inspirar novas percepções e caminhos para todos nós.

A verdadeira arte nos ajuda a enxergar mais longe, a ir mais fundo, a ser mais corajosos, a nos tornarmos mais resilientes e construtivos, a ter mais empatia e a desafiar a nós mesmos e à nossa sociedade a sermos melhores. Assim como os pássaros, precisamos encontrar nossas asas e voar alto, para alcançar altitudes maiores, enxergar mais longe e viajar mais longe. As asas da arte interagem com as correntes de ar, com o ambiente em que nos encontramos. A intuição e a inspiração têm um significado real.

Lembro-me de todas as vezes em que vi aquelas pinturas, quando ouvi aquelas canções, quando senti aquelas conexões e percepções que eram tão tangíveis, mas difíceis de definir. Lembro-me da sensação de importância de uma ação que eu simplesmente precisava realizar, de um acorde, de uma cor e de um caminho que me senti compelido a seguir por curiosidade e por dever. Lembro-me do olhar nas pessoas quando elas percebiam a intenção na minha música. Lembro-me de, certa vez, ficar sem palavras para dizer algo a uma pessoa em desespero e, em vez disso, pegar no violão para expressar isso através da música.

A mentalidade artística está aberta a novos futuros possíveis; ela busca encontrar e criar significado e coerência. Ela busca novos caminhos, além de redescobrir os antigos. Muitas vezes é o trabalho de um indivíduo e, ao mesmo tempo, não pode ser dissociada de seu contexto social. Nem sempre tem certezas. A arte é guiada pela intuição e pelos valores e, ao mesmo tempo, molda esses valores. A arte explica a realidade; a arte é descoberta e também pedagogia.

A arte oferece uma plataforma para diferentes perspectivas e não tem medo da subjetividade. A arte dá a todos nós uma voz para expressar o que vemos e carregamos em nossos corações. A arte é uma janela para uma paisagem além de nós e dentro de nós.

A mentalidade artística não tem medo do caos, pois sabe que um momento de caos é um momento de reorganizar as coisas de novas maneiras. A mentalidade artística não tem medo das emoções, pois sabe que elas são sinais que apontam para novos insights.

A arte busca um conhecimento comum sobre o que significa ser humano. É uma disciplina espiritual. Ela nos lembra do passado e o conecta com o presente, bem como com o futuro. A arte é tecer com propósito; a arte faz perguntas abertas. A arte é ouvir profundamente; a arte é comunicar-se intencionalmente. Ela mostra um elo entre o “eu” e o “nós”. A arte amplia o perímetro e fortalece o núcleo. E é para cada um de nós, não apenas para alguns poucos selecionados.

A democracia não é uma questão técnica, não é preeminente nem evidente por si só; ao contrário, repousa sobre um compromisso coletivo, um entendimento e uma história que precisam ser abordados e expressos em termos artísticos. A arte é um rio que flui constantemente para manter essas verdades vivas e relevantes. Nesta era em que contar histórias é fundamental, precisamos abraçar e compreender a mentalidade artística. Se não o fizermos, não conquistaremos corações e poderemos ser tomados por uma tempestade de agressividade e letargia. A arte é uma necessidade, não um luxo. A arte é profecia, a arte é elevação, a arte é visão.

Trouxe um tijolo para Kiev de trem neste inverno. Dei-o a uma amiga e ela me deu um para levar de volta para casa. Muitas vezes me pergunto se sou uma turista quando viajo pela Ucrânia como norueguesa, como estrangeira. A amiga a quem dei o tijolo disse: “Se você fosse uma turista, não estaria trazendo um tijolo para cá”. Vamos abraçar o papel das artes em todas as suas formas, bem como a mentalidade artística.

Ukraine brick photo

Somos como pássaros. A arte é como asas.

Sveinung Nygaard, músico e compositor norueguês, e um dos membros da equipe de planejamento do Fórum da Democracia de Caux.

Blog language

English

Article language

English